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Gaiola

Ela era apaixonada pelo mundo. Tinha alma de cigana. Peito leve. Não conseguia aquietar em um unico lugar e sempre sentia que havia muito mais lá fora do que dentro de casa. Eu era apaixonada por ela e sabia que nunca ganharia do mundo inteiro. O que eu tinha para oferecer pra ela que valesse mais que o mundo? Era inevitável que eu não sentisse o ciúmes pinçar em meu peito. O outro era tão bonito e cheio de histórias não contadas. Eu era apenas eu. Tão pequena e sem graça em comparação. Eu tentei a segurar dentro do meu próprio peito. Tentei a trancar em mim para que ela não visse nada do lado de fora. Me transformei numa prisão. Cadeado. Gaiola. Tentei fazer com que ela não o visse. Talvez assim a falta não se fizesse nela. Pensei nisso tantas vezes que quase aconteceu. Mas a prisão sufocava. Deixava meu peito pesado com o peso de nós duas. E eu via nos olhos dela que ela era feito passarinho, que precisa voar para poder cantar. Para poder viver. O que é um passarinho preso...

Pensar

Pensava em voltar Não para onde parou, Mas para onde deveria ter parado. Pensava em não esperar Não porque perderia alguma coisa, Mas porque a ânsia de te ver me enchia o peito e perturbava a cabeça. Eu fui pior do que poderia ser Nos sabotei Tirei dos seus olhos o que eu não queria ver Penso em voltar, Se você ao menos pudesse aceitar Não sabe o que é não ter os braços de minha protetora. Então pelo menos tente aceitar. Não vou jogar, Você me livrou dos meus pesos, E eles me acorrentam por estar sem você Culpado ou não já fui condenado, Mas pensei apelar ao juiz Pena que o juiz é você. Eu penso, eu sei, que é difícil acreditar Não é uma questão de mudar, Eu só sei que apenas você pode me salvar. Não pense, mesmo que você não assuma, Eu sei o que eu fiz Mas deixe-me voltar, Eu ainda penso voltar E nunca vou parar de pensar Pois nunca se esquece do que não se pode ter. Pensando ou não pensando Eu não me conte...

Copo americano

Ela tentou voltar o olhar para algum outro canto da cozinha. Tentou. Mas os olhos sempre voltavam para o copo que descansava sobre a pia. Era um copo americano normal, daqueles em que você toma pingado todos os dias de manhã na padaria. Era um copo normal, mas ele era diferente. Ela suspirou, enquanto descansava o rosto nos braços cruzados sobre a mesa. Aquilo havia se tornado parte da sua rotina. Fazia quase uma semana que se acostumara a tomar seu café da manhã na cozinha silenciosa. Ela só podia escutar a própria respiração e as crianças no apartamento de cima. E então, depois de comer ela só ficava ali, devaneando enquanto os olhos fitavam o copo vazio. Naquela semana ela decorara cada traço dele. A forma como a luz fraca da manhã refletia no vidro e brilhava na pia. O trincado na borda, de quando ele o deixara cair enquanto lavava a louça mês passado. E ela lembrou do sorriso culpado no rosto de barba por fazer quando ela perguntou o que estava acontecendo. O resto de café ...

O garoto de capa vermelha

Foi só por alguns segundos. Um vislumbre pela janela arranhada do ônibus. Quase não podia acreditar em como a cena lhe lembrava algo saído de um filme. Era um garoto que ela via pela janela. Ela sentada. Ele correndo. A touca do moletom vermelho na cabeça, o restante da peça voando atrás de suas costas como uma capa de super herói. Uma capa de cavaleiro. De um rei. O garoto corria rua abaixo sob o sol fraco de uma tarde quente. Os chinelos batendo no calcanhar, os braços grudados ao lado do corpo. Ele corria, mas não perdia o fôlego. Não ofegava. Parecia poder continuar correndo por dias se precisasse. Até alcançar o que almejava com a corrida. E o que um garoto daquela idade podia querer tanto para correr daquele jeito? Talvez nada. Talvez tudo. E o mais estranho de toda a situação é que ela se viu torcendo para que ele corresse mais rápido pela calçada desnivelada. Seu peito se enchendo de uma pressa e de uma agonia por estar ali sentada. O garoto do lado de fora do ônib...

Prisões da vida - Analise do conto "De água nem tão doce" de Marina Colasanti.

Conto original: De água nem tão doce Criava uma sereia na banheira. Trabalho, não dava nenhum, só a aquisição dos peixes com que se alimentava. Mansa desde pequena, quando colhida em rede de camarão, já estava treinada para o cotidiano da vida entre azulejos. Cantava. Melopeias, a princípio. Que aos poucos, por influência do rádio que ele ouvia na sala, foi trocando por músicas de Roberto Carlos. Baixinho, porém, para não incomodar os vizinhos. Assim se ocupava. E com os cabelos, agora pálido ouro, que trançava e destrançava sem fim. "Sempre achei que sereia era loura", dissera ele um dia trazendo tinta e água oxigenada. E ela, sem sequer despedir-se dos negros cachos no reflexo da água da banheira, começara dócil a passar o pincel. Só uma vez, nos anos todos em que viveram juntos, ele a levou até a praia. De carro, as escamas da cauda escondidas debaixo de uma manta, no pescoço a coleira que havia comprado para prevenir um recrudescer do instinto. Baix...

Abraço

Nunca gostei de pessoas grudentas, mas ela... Nunca me senti confortável dentro dos abraços de outras pessoas, mas nos braços dela... Sempre me senti sufocado por carícias de mãos que gostam de sentir demais e beijos sem tesão, mas quando era tocado por ela eu virava um gato carente, uma criança manhosa, e meu corpo implorava por mais de seus carinhos sutis e de seus abraços de urso. Daqueles que te deixam sentir cada curva do corpo alheio. Apertado. Sem espaço pra solidão. Com ela aprendi como é bom poder se perder no peito de outro alguém, se deixar envolver por braços acolhedores e ser coberto de beijos que espantam todas as outras coisas banais. Como é bom ter meu cheiro misturado com o dela. Nosso cheiro. Como é gostoso sentir sua respiração tão perto da minha e sentir seu peito tremer quando ela ri de alguma besteira qualquer que eu disse. Como ela acaricia meu cabelo e como me olha tão cheia de amor. Com ela aprendi o verdadeiro valor de um abraço e como um ato tão simple...

Talvez

Me mandaram descer, logo eu que amo viver nas nuvens. Talvez eu tenha esquecido o nome dela, mas daquele rosto, não tem como não se lembrar. De quem eu falo? Da menina que mora no terceiro andar, no prédio em frente ao supermercado, virando a esquina do posto de gasolina. Como eu sei? Bom, eu sou alguém que senta numa cadeira perto da janela, na padaria, ao lado do supermercado toda manhã. Como a conheci? Ela sai do prédio de segunda a sexta, as 8 em ponto, e entre uma xícara e outra de café passei a notar a bela moça que atravessa a rua, entra na padaria, toma um chá, come dois pães de queijo e sai apressada para não perder o ônibus. Quanto tempo faz? Não tenho certeza, sou péssimo com datas, a questão é que pode ter se passado dias, semanas e até meses. Por que não falo com ela? Se você me conhecesse, saberia que não tenho chance alguma. Ela é o tipo de pessoa boa de se apreciar, talvez uma conversa cara-a-cara quebraria o meu encanto, ou não, talvez percebesse que el...