Gaiola
Ela era apaixonada pelo mundo. Tinha alma de cigana. Peito leve. Não conseguia aquietar em um unico lugar e sempre sentia que havia muito mais lá fora do que dentro de casa. Eu era apaixonada por ela e sabia que nunca ganharia do mundo inteiro. O que eu tinha para oferecer pra ela que valesse mais que o mundo? Era inevitável que eu não sentisse o ciúmes pinçar em meu peito. O outro era tão bonito e cheio de histórias não contadas. Eu era apenas eu. Tão pequena e sem graça em comparação. Eu tentei a segurar dentro do meu próprio peito. Tentei a trancar em mim para que ela não visse nada do lado de fora. Me transformei numa prisão. Cadeado. Gaiola. Tentei fazer com que ela não o visse. Talvez assim a falta não se fizesse nela. Pensei nisso tantas vezes que quase aconteceu. Mas a prisão sufocava. Deixava meu peito pesado com o peso de nós duas. E eu via nos olhos dela que ela era feito passarinho, que precisa voar para poder cantar. Para poder viver. O que é um passarinho preso...