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Mostrando postagens com o rótulo Crônica

Bom dia

Eu me lembro de acordar aos domingos antes de todos os meus irmãos. Era um dos poucos momentos em que eu ficava sozinho aos meus sete anos. Quando ficava deitado na cama de baixo da beliche, um sol pálido e preguiçoso acertando meus olhos de maneira pouco gentil. Na meia luz do quarto, com a respiração de meus irmaos enchendo o ambiente, eu conseguia escutar minha mãe na cozinha pela porta aberta. Era um som familiar de panelas no fogo, copos tilintando e uma melodia cantarolada baixinho. Eu podia ver os movimentos dela por debaixo dos meus olhos fechados e sabia que ela usava um avental amarelo, enquanto colocava canecas e pratos para nós três. Tinha pão quente, e eu me lembro da toalha de mesa florida que usávamos para brincar de cabaninha vezes sem conta. Nessa hora eu costumava levantar sozinho da cama. Sem me espreguiçar, lavar o rosto, ou arrumar as cobertas. Eu só sentia o chão gelado contra o quente dos meus dedos, e caminhava até a cozinha desviando de carrinhos, boneca...

Vermelho

Eu me acostumei a procurar por ele nas esquinas das ruas vazias. Nas mesas dos bares barulhentos. Nas janelas riscadas dos ônibus. Nas estações lotadas do metrô. Me acostumei a procurar os sinais de vermelho quente em meio a multidão de pessoas frias. Um casaco pesado, uma touca na cabeça, um cachecol em forma de laço em volta do pescoço. Tudo em vermelho sangue. Pulsante. Vibrante. Tão fácil de se ver na maré cinza de todos os dias. Deveria ser fácil, mas eu parecia cega. Olhos vendados, ou o mundo se fazia sempre preto em branco ao meu redor. Mesmo assim achei que eu o encontraria no meio do caos. Me acostumei a procurar. Achei que eu o conhecia. Que sabia bem dos traços do seu rosto. Da cabeça aos pés. Dos gostos dele até a forma como ele conseguia pintar o mundo de todos em colorido. Eu queria transbordar meu mundo da mesma forma. Achei que ele era um velho amigo meu, e que eu tinha propriedade de contar sobre ele nas minhas histórias. Mas eu não tinha. Um dia perceb...

A primeira vista

A primeira coisa que eu vi foram os seus dedos. Dedos finos e de unhas curtas e sujas de terra, todo o ar cheirava a terra quando eu notei a sua presença. A tarde andava a passos lentos do lado de fora, uma brisa gostosa me espantava o calor do verão, a sala de aula vazia pelas férias já na metade. Estava entretido no dever de reforço de física de tal forma que não notei quando ele se debruçou contra a janela ao meu lado. Não escutei o riso frouxo que deixou escapar pelo nariz e me sobressaltei quando ele batucou na madeira da carteira com os dedos sujos de terra. -Por que ainda está aqui? - ele perguntou de maneira debochada. - Achei que fosse um fantasma quando te vi pela janela. Quase disse que a assombração deveria ser ele, pelo susto que me dera, mas me distrai com a mancha de terra no meu exercício, esfregando com o dedo apenas pra deixar a mancha pior. -Recuperação em física - disse apenas. - E você? Ele apoiou o rosto nas mãos sujas e olhou para o canteiro atrás da e...

Deixar

A gente costuma abandonar, mas deixar? Não conheço alguém capaz de deixar. Mas deixar o quê? Não me pergunte, apenas me intriguei com o pensamento. O pensamento de finalmente deixar você. Mesmo que seja ruim, que não tenha nada de bom, não sei como deixar você.  Foi como uma árvore que cresceu e criou raízes, você se plantou em mim e eu tive a infeliz ideia de te regar, agora não dá para te deixar. Até uma bruxa chamei, pedi que te arrancasse, a força e sem pudor, te levasse para longe e te deixasse lá, mas não sei se funcionou, talvez alguma semente tenha sobrado e eu não a deixei ir.  Não sei porque tanta moléstia, é só deixar e você vai, mas ainda não foi, só parou de crescer, mas não foi. Não é minha culpa não deixar, você costumava fazer parte de mim, mesmo em sonho, mesmo em pesadelo. E agora tento te deixar ir, então vai, me solte, não me abandone, só me deixe, que eu te deixo para onde quiser ir. Por Flowers. 

Gaiola

Ela era apaixonada pelo mundo. Tinha alma de cigana. Peito leve. Não conseguia aquietar em um unico lugar e sempre sentia que havia muito mais lá fora do que dentro de casa. Eu era apaixonada por ela e sabia que nunca ganharia do mundo inteiro. O que eu tinha para oferecer pra ela que valesse mais que o mundo? Era inevitável que eu não sentisse o ciúmes pinçar em meu peito. O outro era tão bonito e cheio de histórias não contadas. Eu era apenas eu. Tão pequena e sem graça em comparação. Eu tentei a segurar dentro do meu próprio peito. Tentei a trancar em mim para que ela não visse nada do lado de fora. Me transformei numa prisão. Cadeado. Gaiola. Tentei fazer com que ela não o visse. Talvez assim a falta não se fizesse nela. Pensei nisso tantas vezes que quase aconteceu. Mas a prisão sufocava. Deixava meu peito pesado com o peso de nós duas. E eu via nos olhos dela que ela era feito passarinho, que precisa voar para poder cantar. Para poder viver. O que é um passarinho preso...

Copo americano

Ela tentou voltar o olhar para algum outro canto da cozinha. Tentou. Mas os olhos sempre voltavam para o copo que descansava sobre a pia. Era um copo americano normal, daqueles em que você toma pingado todos os dias de manhã na padaria. Era um copo normal, mas ele era diferente. Ela suspirou, enquanto descansava o rosto nos braços cruzados sobre a mesa. Aquilo havia se tornado parte da sua rotina. Fazia quase uma semana que se acostumara a tomar seu café da manhã na cozinha silenciosa. Ela só podia escutar a própria respiração e as crianças no apartamento de cima. E então, depois de comer ela só ficava ali, devaneando enquanto os olhos fitavam o copo vazio. Naquela semana ela decorara cada traço dele. A forma como a luz fraca da manhã refletia no vidro e brilhava na pia. O trincado na borda, de quando ele o deixara cair enquanto lavava a louça mês passado. E ela lembrou do sorriso culpado no rosto de barba por fazer quando ela perguntou o que estava acontecendo. O resto de café ...

O garoto de capa vermelha

Foi só por alguns segundos. Um vislumbre pela janela arranhada do ônibus. Quase não podia acreditar em como a cena lhe lembrava algo saído de um filme. Era um garoto que ela via pela janela. Ela sentada. Ele correndo. A touca do moletom vermelho na cabeça, o restante da peça voando atrás de suas costas como uma capa de super herói. Uma capa de cavaleiro. De um rei. O garoto corria rua abaixo sob o sol fraco de uma tarde quente. Os chinelos batendo no calcanhar, os braços grudados ao lado do corpo. Ele corria, mas não perdia o fôlego. Não ofegava. Parecia poder continuar correndo por dias se precisasse. Até alcançar o que almejava com a corrida. E o que um garoto daquela idade podia querer tanto para correr daquele jeito? Talvez nada. Talvez tudo. E o mais estranho de toda a situação é que ela se viu torcendo para que ele corresse mais rápido pela calçada desnivelada. Seu peito se enchendo de uma pressa e de uma agonia por estar ali sentada. O garoto do lado de fora do ônib...

Abraço

Nunca gostei de pessoas grudentas, mas ela... Nunca me senti confortável dentro dos abraços de outras pessoas, mas nos braços dela... Sempre me senti sufocado por carícias de mãos que gostam de sentir demais e beijos sem tesão, mas quando era tocado por ela eu virava um gato carente, uma criança manhosa, e meu corpo implorava por mais de seus carinhos sutis e de seus abraços de urso. Daqueles que te deixam sentir cada curva do corpo alheio. Apertado. Sem espaço pra solidão. Com ela aprendi como é bom poder se perder no peito de outro alguém, se deixar envolver por braços acolhedores e ser coberto de beijos que espantam todas as outras coisas banais. Como é bom ter meu cheiro misturado com o dela. Nosso cheiro. Como é gostoso sentir sua respiração tão perto da minha e sentir seu peito tremer quando ela ri de alguma besteira qualquer que eu disse. Como ela acaricia meu cabelo e como me olha tão cheia de amor. Com ela aprendi o verdadeiro valor de um abraço e como um ato tão simple...

Talvez

Me mandaram descer, logo eu que amo viver nas nuvens. Talvez eu tenha esquecido o nome dela, mas daquele rosto, não tem como não se lembrar. De quem eu falo? Da menina que mora no terceiro andar, no prédio em frente ao supermercado, virando a esquina do posto de gasolina. Como eu sei? Bom, eu sou alguém que senta numa cadeira perto da janela, na padaria, ao lado do supermercado toda manhã. Como a conheci? Ela sai do prédio de segunda a sexta, as 8 em ponto, e entre uma xícara e outra de café passei a notar a bela moça que atravessa a rua, entra na padaria, toma um chá, come dois pães de queijo e sai apressada para não perder o ônibus. Quanto tempo faz? Não tenho certeza, sou péssimo com datas, a questão é que pode ter se passado dias, semanas e até meses. Por que não falo com ela? Se você me conhecesse, saberia que não tenho chance alguma. Ela é o tipo de pessoa boa de se apreciar, talvez uma conversa cara-a-cara quebraria o meu encanto, ou não, talvez percebesse que el...

Crescer tem dessas coisas

Começar é, começar é sempre difícil, não é mais como escolher entre o lápis de cor azul ou o amarelo para pintar o boné do garoto que você desenhou na aula de artes. Não é mais assim, é mais complicado que isso, é como escolher entre nadar ou afundar no meio do oceano, durante uma chuva de meteoros. Porque sim! Sim, você cresceu, e crescer tem dessas coisas. Agora você não se sente mais, quer se tocar, mas não consegue ver sua imagem no espelho. Tudo parece tão errado, só por que você cresceu e crescer tem dessas coisas. É difícil se enquadrar, se encontrar, você perdeu sua arte, mas no fundo ainda acha que tudo vai melhorar. Mas crescer tem dessas coisas, prova pra passar e o mundo pra conquistar. Todos apontam pra você dizendo que o futuro está em suas mãos, e você sabe que será apedrejado caso chegue a falhar, mas você ainda respira fundo e levanta da cama, porque crescer tem dessas coisas. Seu pai diz que você deve arrumar uma namorada boa, moça de família, mas você se ...